Debate sobre Antropofagia no Teatro Coletivo Fábrica
Um espectro ronda a Humanidade: A Antropofagia
As dentições antropofágicas e seus desdobramentos artístico-sociais
O encontro proposto pela Cia. Antropofágica debate a antropofagia como princípio criador, tendo a devoração como anti-método de apreensão do mundo.
No ano em que se completa 80 anos do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, a Cia. Antropofágica propõe compartilhar sua pesquisa de seis anos da antropofagia nos processos do grupo, partindo da abrangência histórica da antropofagia como movimento complexo e contraditório e sua importância na cultura brasileira.
Com: Cia. Antropofágica, Antonio Macário de Moura e Thiago Reis Vasconcelos.
Local: Teatro Coletivo – Rua da Consolação, 1623 – Telefone 11 3255-5922
Quando: segunda-feira 24 de novembro do ano 454 da deglutição do Bispo Sardinha em São Paulo de Piratininga
Horário: 20h
Leia o texto de Antonio Macário de Moura referente ao debate
A perenidade da obra de arte
Antonio Macário de Moura
De imediato podemos afirmar que análises e discussões estéticas no âmbito do materialismo devem partir do pressuposto de que se tratando de obra de arte sua forma e conteúdo se interpenetram, forma um todo histórico-social humanamente tão vigoroso que nem mesmo as barreiras do tempo e do espaço retém sua influência expansiva diante da qual a intenção e o posicionamento ideológico do seu arquiteto só conta como estrutura psicológica e conduta prática no trato com as adversidades que tem diante de si. Isso se deve ao fato de o artista enquanto singularidade engastada na particularidade, captar idealmente as leis universais da matéria, esculpindo-a de forma a pôr em relevo precisão conceitual e originalidade criadora.
De acordo com Lukács “A ruptura do materialismo com a filosofia idealista se revela precisamente nisto: em estabelecer firmemente a prioridade da realidade objetiva comum”. Isso porque, continua o filósofo húngaro “No interior da comunidade de conteúdo e forma, são também comuns as categorias de singularidade, particularidade e universalidade”. A propositura lukácsiana é uma crítica aos traços idealistas subjetivos presentes na obra de Simmel que ao priorizar essa ou “aquela atitude em face da realidade, cria ‘mundos’ especialíssimos isolados um do outro.”
Como forma de ser, em Lukács as categorias se estabelecem hierarquicamente de maneira que a particularidade é necessariamente a mediação entre o singular e a universalidade, principalmente em se tratando de reflexo estético que não é “mecânico” e tão pouco “fotográfico”, mas antes de tudo, atividade consciente no manejo do conjunto de problemas e questões recorrentes ao desenvolvimento das forças produtivas captadas pelo esforço estético com tamanha precisão que “A particularidade é sob tal forma fixada que não mais pode ser superada: sobre ela se funda o mundo formal das obras de arte”.
Ao tempo que a singularidade e a universalidade se expandem continuamente, a particularidade “fixa em cada oportunidade um grau de desenvolvimento da humanidade para a consciência humana” de maneira que a validade da obra de arte mantém-se, ainda “que todos os seus elementos estruturais, em seus aspectos formais e na técnica artística, já tenham há muito tempo sido superados no curso da evolução”. O revolucionário húngaro afirma sem rodeios “Toda obra de valor discute intensamente a totalidade dos grandes problemas de sua época: tão somente nos períodos de decadência estas questões são evitadas”, ganhando destaque a “Teoria e a práxis da decadência (que) sublinham sempre a singularidade, que se torna um fetiche como unicidade, irrepetibilidade, indissolubilidade, etc.”
Entendemos que é a partir desse referencial teórico que se pode abordar com alguma propriedade o eclético Movimento Antropofágico e a polêmica figura de Oswald de Andrade – intelectual rebelde de vida nababesca e escandalosa para os padrões morais e políticos de sua classe social e época, teoricamente cosmopolita – Oswald inquiria esteticamente a realidade nacional do interior mesmo da autocracia burguesa cristalizada na dinâmica subordinante do capital metropolitano, herança histórica marcante, fragilizadora da burguesia, seu lento, retardatário e por isso mesmo tímido processo industrial-civilizatório.
Todo movimento revolucionário do início do século XX no Brasil, por conta da ausência de pesquisas detalhadas acerca de nossa particular formação sócio, econômica e política, em maior ou menor medida acabava por absorver lineamentos teórico-práticos alóctones enquanto se batia contra uma cultura autocrática particularizadora com ritmo e dinâmica própria que se alguma semelhança guardava (e guarda) com as vias clássicas e tardias de efetivação capitalista inspiradoras, confirma-se pela presença de um aparelho estatal vigilante e repressivo de todo e qualquer movimento organizado que atentasse contra a autocracia reinante, suas teorizações claramente transpassadas inspiradas por ideais político-filosóficos reacionários.
Visto e analisado por esses prismas é perfeitamente compreensível, a nosso ver, as não poucas dubiedades e conflitos presentes no eclético Movimento Antropofágico principalmente no Manifesto Oswaldiano – que devido ao imediatismo limitador dessas observações não permite explorá-las mais detidamente – ao procurar apreender político e esteticamente a realidade nacional, na sua particularidade inserida no processo civilizatório ocidental que sem as transformações e modalidade de domínio imposto a periferia sistêmica, segundo a antropofagia como universalidade, se quer os direitos humanos, do homem e do cidadão existiriam, fato também constatado pelos clássicos marxistas e weberianos.
A importância da obra e militância de Oswald de Andrade reside exatamente em demarcar a particularidade brasileira do final do século XIX, décadas seguintes como realidade movente e movida no cerne da universalidade civilizatória trançada por relações sócio-culturais próprias da barbárie.
