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Registro dos “Diálogos Antropofágicos”

O primeiro encontro de devoração aberto ao público – parte integrante do Projeto de Fomento da Cia. Antropofágica – realizado no dia 08 de dezembro de 454 (ano de deglutição do Bispo Sardinha), aconteceu trazendo inovações no formato e na estrutura de encontros envolvendo explanações de idéias.

A primeira delas foi o tema extremamente amplo “Liberdade em Pindorama” (quase um anti-tema, uma maneira de fazer com que o convidado se livre – um pouco – do preparo prévio que um tema fechado propicia), o que imprimiu um caráter mais informal ao diálogo, mas não menos caloroso e controverso.

A segunda inovação (que não chegou a ocorrer, talvez devido ao teor das colocações e aos discursos inflamados) seria o rompimento com a idéia de palestra ou mesa-redonda, ou seja, o que se almejava era que os diálogos pudessem tirar a aura que envolve a retórica dos convidados e promovesse a socialização entre os demais envolvidos no processo, o que acarretaria em uma “dessacralização” do mesmo.

No cardápio, o prato principal eram o sociólogo Chico de Oliveira e o filósofo Paulo Arantes ambos professores aposentados da USP, acompanhados de frutas pindoranenses e, claro, regados a vinho. Abrindo o encontro, um repente comunista proferido pelas atrizes Renata Adrianna e Martha Guijarro, uma homenagem-rito, um canto-dança antropofágico que precedeu a devoração.

O primeiro a explanar idéias, conceitos, críticas e a iniciar a roda de diálogo foi Chico de Oliveira; frisando que o tema amplo fornecido se estendia desde “o padre Anchieta ao pai-Lula”, discorreu sobre o Brasil-colônia, primeiramente apontando que a expressão é um termo de historiadores (Caio Prado Júnior). Pontuou que o modelo de Gilberto Freyre (casa-grande e senzala) só pode ser utilizado para descrever alguns latifúndios mais centrais e ricos do período colonial, ao passo que a maioria dos latifundiários desempenhavam funções diversas.

Fundamentada num poderio escravocrata (mercantilismo) e não na propriedade e posse de terras, a concentração de poderes na metrópole impediu que aqui ocorresse uma colonização liberal como a norte-americana segundo Chico. Ele também ressaltou que algumas leituras anacrônicas de historiadores equivocam-se ao traçar o panorama colonial brasileiro sob um viés de “frente para trás”.

Chico também falou sobre o manifesto comunista, salientando que Marx e Engels poderiam ter elaborado uma teoria da “periferia” (ou das periferias) do sistema capitalista, mas não o fizeram, o que implicou em uma teoria que não deu conta, nem previu o processo de globalização ou mundialização, segundo o sociólogo. Realizando duras críticas ao marxismo, Chico chamou atenção para as fontes de pesquisa de Marx e Engels (museu britânico e, consequentemente, história dominante; ciência política francesa; filosofia alemã; movimento dos trabalhadores) que apostaram numa política social fundamentada numa classe que não tinha nada a perder a não ser os seus “grilhões”.

Já Paulo Arantes começou falando sobre qual seria o panorama para o (im)possível estabelecimento da liberdade em Pindorama. Traçando analogia com o carnaval (o convidado falou que o tema do diálogo muito se assemelhava com o de um samba-enredo e que ele faria as vezes de repórter descrevendo um fato ocorrido), narrou o que acontecera num tribunal não-fictício do qual fora jurado, um tribunal popular, cujo réu – o Estado brasileiro – fora julgado pelos crimes cometidos por seus agentes (crimes e violência institucionais).

Convocado por instituições e diferentes organizações foi semelhante ao Tribunal Tiradentes, ocorrido no Teatro Municipal em 1981, que discutiu e julgou a Lei de Segurança Nacional. Já o tribunal do qual o professor participou julgou os seguintes crimes: a ocupação do complexo do alemão pela polícia; a violência no Estado da Bahia, nos presídios baianos, denunciada por movimentos organizados de hip-hop e movimento negro; os crimes de maio ou o “levante do dia das mães” (os “ataques do PCC”, que, segundo dados fornecidos por Arantes, resultaram em 493 mortes, das quais 47 foram de responsabilidade do PCC e as demais fruto da ação da polícia); as vítimas sociais e violência sofrida por agricultores rurais, sem-terra, índios e quilombolas e o “interdito proibitório” (sistema inconstitucional criado contra as greves dos assalariados, no caso os bancários, pelo qual fica estabelecido que o grevista, por ser um “patrimônio da empresa”, não tem direito à greve, podendo ser demitido por causar danos à empresa).

Citando fala de dirigente do MST que fez distinção entre o trabalhador, cidadão e o suposto “bandido” ao sofrer repressão e agressões por parte da polícia (confusão social), Paulo Arantes apontou para o fato do aparato repressivo da ditadura estar intacto, funcionando contra o pobre (torturas do preso comum). Explicou sobre o fantasma do aumento da violência urbana citando uma pesquisa de mestrado realizada por um acadêmico-policial (“Tiras, trutas e gansos”, de Guaracy Mingardi) que discorre sobre os artifícios da polícia para extorsão (o aumento da violência estaria diretamente relacionado ao aumento da extorsão, lógica da produtividade do crime).

O convidado explanou sobre o encarceiramento do pobre como medida de “segurança preventiva” que privilegia determinadas classes sociais; sobre como o poder punitivo se constitui (confiscando da vítima o poder de punir, não se tem direito à vingança e o poder é passado a outro legitimado: criação dos tribunais).

Após a fala de Paulo, o mediador e diretor da Cia. Antropofágica, Thiago Reis Vasconcelos, passou a palavra aos presentes, dando continuidade aos diálogos. Um deles discorreu sobre a situação dos bancários mediante o “interdito proibitório”, tendo sido ele próprio demitido e retaliado pela medida provisória baixada pelo governo.

Chico de Oliveira pontuou que o sistema capitalista só se expande pela exceção, que as formas democráticas são suportadas apenas pelas classes dominadas e não pelas dominantes, que num “Estado de exceção” – onde as medidas provisórias pululam – fica destacado o caráter inconstitucional da legislação (questões dos ricos é que chegam aos tribunais da elite). Paulo emendou dizendo que na cena teatral está ausente o debate sobre o trabalho e reduzido no cinema (o convidado citou como um dos filmes que trata do assunto “A casa de Alice”).

Outros presentes realizaram perguntas relacionadas à autocracia, às riquezas e ao papel da América Latina no cenário contemporâneo, as idéias de Chasin, sobre os conceitos de anti-valor e das teorias frankfurtianas.

Muitos questionamentos, muitas faíscas, muitos embates ideológicos.

O mais importante é que um espaço de reflexão e de trocas se estabeleceu em Pyndorama, uma possibilidade de destrinchar os discursos (os próprios e os alheios), tornando-os acessíveis, digeríveis, devoráveis. Evoé.

Mei Hua.

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