Zumbi or not Zumby nas escolas por Mei Hua
Breve registro-agradecimento ao PY/Antropofágica
Se a mão livre do PY, tocá nas escolas, o que é que vai fazê?
Vai fazê samba pra gente sambá,
vai fazê roda pra gente entendê,
vai fazê peça pra gente pensá,
vai trazê dança, ar fresco e prazer…
Que pena que o que é bom, dura pouco. Assim, como brisa suave, que passa rápida e rasteira, mas deixa seu perfume e sua essência, as apresentações da peça Zumbi or not Zumby aconteceram em seu primeiro dia na escola pública Tamandaré.
O encontro do teatro com a escola é um namoro antigo, mas sempre cheio de meandros, de impasses, de burocracia. Difícil como tudo que adentra a esfera pública, seja de que âmbito for. Mas o fato é que, esforço daqui, muito boa vontade de lá, o evento aconteceu. Carteiras pra cima e pra baixo, perdidos na selva, sol, calor, suor, barulho. Nada impediu o contato público(escolar)-Py/Cia Antropofágica- teatro. E, em meio ao caos, a vontade ressurge.
Sei que mais do que uma mera obediência à contrapartida social exigida pelo Programa de Fomento, o que motivou esse encontro foi a crença de que algo ainda pode ser feito, de ambos os lados. Certamente levar uma peça, gratuita, densa e complexa como essa para dentro dos muros da escola exige, para além da disposição, coragem e ousadia. Não é pra qualquer um. Mas como estamos tratando de rebeldes, de guerreiros que oferecem resistência e, graças aos deuses(!), ainda existem, o processo todo fluiu bem.
Não houve amarras, nem grades, nem distância que impedissem a propagação da pergunta: somos livres, seja na escola ou fora dela, seja em Pyndorama-Território Antropofágico ou em Pindorama-Brasil? O que é essa escravidão atual, esse grilhão invisível e insano que nos cerceia a todo momento, seja nas pequenas ou nas grandes ações, essa incapacidade de ser subversivo, essa submissão aos valores impostos por outrem? Fica a pergunta para quem puder responder…
A escola pública muito se assemelha a um presídio. Os cubículos apinhados, gente amontoada, as regras, as sirenes, as grades, a revolta e o autoritarismo. Os elementos são os mesmos, mas a função, primordialmente, deveria ser outra. Deveria. Mas não é. E nós, os professores-carcereiros, diretamente no front, penamos. Seja pelo trabalho insano, pela batalha diária contra as falsas promessas de educação, os baixos salários, a ausência de condições de trabalho, o embate contra os inimigos do povo (sejam alunos, sejam secretários da educação), ainda assim, resistimos. Como os quilombolas, como os guerreiros de Pyndorama-Pindorama. E como nos foi cara essa brisa que soprou com a vinda de vocês, a oportunidade de respirar, de ficar à sombra da árvore, de rir, de compartilhar. Um alento benfazejo.
Não posso pagá-los. O que vocês fizeram e fazem não tem preço. Tem sim um enorme valor. Um inquestionável valor.
Pago apenas com palavras. De gratidão, de reconhecimento, de carinho. Agradeço.
Agradeço inclusive em nome daqueles que ainda não perceberam a crueldade da vida, que ainda estão imersos em outro universo, que mantém uma euforia que, cotidianamente contida, quando extravasada, chega a ser agressiva. Mas é alegria. Ainda que desordenada, bizarra, alienada ou ingênua, é alegria. Ainda bem, pois a alegria é a prova dos nove, então, sigamos adiante, mesmo em meio a muitos, inúmeros percalços.
Agradeço
pelo coturno do Andrews, contrastando com sua essência suave, pisando duro no chão da arena;
pela perspicácia, descontração e desenvoltura da Dani, sempre confiante durante todas as apresentações ( e pelo adorável grito “Guerra!”);
pela força, potência e constância da Rê, mesmo irritada com a algazarra;
pela presença, firmeza e pela fala contundente do Gilberto na canção da mão livre do negro que toca e transforma;
pela agilidade, persistência e improvisação do Thiago (só fiquei sabendo que houve alguma falha por que ouvi os comentários do diretor);
pela beleza juvenil (que tanto chamou a atenção do nosso público), pela tenacidade e pela tranquilidade da Fernanda;
pelo ímpeto e coragem em se expôr em sua própria escola do Guilherme;
pelo vigor, valentia e desembaraço do Valter;
pela presença fundamental, providencial e solícita da Flávia;
pela participação necessária e valorosa do Zé,
pela música divinal (que nos leva a lugares tão distantes, tão inesperados), orquestrada com maestria por Lucas;
pela resistência cultural irredutível e incansável de Thiago Reis Vasconcelos na condução de todo o processo, tão belamente elaborado, tão coletivamente sonhado. Admiro-o pela disposição em fazer aquilo que os outros não têm ousadia (ou competência) para fazer. Quando for grande, quero ser assim, caro amigo.
A todos, agradeço sinceramente pela humildade – que só é possível de provir dos magnânimos – com que encararam a “força-tarefa” de levar teatro-cultura para a escola. O front agradece!
Evoé. Mei.
