A Celebração como Resistência
A autópsia que nos é oferecida não é agradável. Assim como não é agradável todos os rastros e estragos, atrocidades e humilhações plantadas à força no solo da terra brasilis. Descortinam-se os feitos e desfeitos, os mandos e desmandos, o olhar que se volta para o passado e para os seus reflexos na contemporaneidade. E é esse movimento dinâmico e dialógico que faz de Terror e Miséria no Novo Mundo – Estação Paraíso um espetáculo especial. Não só porque fruto de um trabalho teatral de grupo da mais fina espécie, resultado de um complexo sistema colaborativo, quase utópico em tempos de indústria cultural (fatores que por si só já bastariam para elevar a peça a um nível pouco visto no cenário teatral), mas porque traz à tona e à cena reflexões que povoam mentalidades e intelectos que estudam a nossa história, mas que pouco se reportam às massas. É bem verdade que o conteúdo ali contido é denso, sintético, e exige do espectador um grau avançado de abstração. Em contrapartida, a mescla de imagens e músicas que atingem o imaginário, a força simbólica das cenas, a autonomia na atuação – aliada ao olhar sensível e apurado da direção – reforçam um caráter receptivo de abertura ao novo também aos pouco iniciados na arte teatral.
A saudação desejando vida longa ao teatro e à antropofagia, evoé, entoada no bloco carnavalesco-antropofágico de nossa senhora dos cordões, logo no início da peça, é tão convidativa quanto a máxima oswaldiana sobre a alegria. Mas que o público não se iluda. O que se segue é uma síntese não-linear, não-convencional, não-naturalista, não-padronizada, e por isso mesmo tão ácida e reveladora, de nossa história. Essa mesma história que já foi contada e recontada, uma mentira dita muitas vezes que virou verdade, a ótica dos vencedores, a versão do invasor, do colonizador, do dominante é desmitificada durante todo o espetáculo através de escolhas estéticas bastante peculiares que buscam um lugar próprio, uma expressão autoral da companhia que já se desenhava em mares d’antes naufragados. O fato é que na presente cena um estranhamento surge, seja pela linguagem surrealista, pela quebra brechtiana, pela elaboração atípica das cenas, pela profusão de símbolos, sons, adereços ou pela aptidão em correlacionar todos esses elementos. Como resultado das insanas pesquisas de criação, de leituras literárias, estudos de corpo e voz, discussões e debates infindáveis sobre o que é a liberdade e todas as suas imbricações, emerge um fazer teatral no solo antropófago capaz de atingir os sentidos numa explosão sinestésica e catártica sem, no entanto, perder o distanciamento crítico e a reflexão como prega o teatro épico.
Numa perspectiva literária, poderíamos aproximar o espetáculo de uma obra inacabada, com suas lacunas e becos sem saída que jogam no colo daquele que o assiste a responsabilidade de preencher os vácuos proporcionados por uma dramaturgia não tradicional. De acordo com suas referências, seus posicionamentos ideológicos e seus anseios, o espectador é levado a chegar às suas próprias conclusões. Há, no entanto, em diversos momentos, fortes indícios do rumo pretendido, mas ele não se revela facilmente em virtude do jogo dialético. Essa incompletude da obra, mais uma vez alude a Brecht:
Quanto tempo/Duram as obras? Tanto quanto/ Ainda não estão completas./Pois enquanto exigem trabalho/Não entram em decadência.
Convidando ao trabalho/ Retribuindo a participação /Sua existência dura tanto quanto
Convidam e retribuem.
As úteis /Requerem gente/As artísticas /Têm lugar para a arte/As sábias /Requerem sabedoria/As duradouras /Estão sempre para ruir/As planejadas com grandeza/São incompletas.(…)
Por vezes chegamos a um riso nervoso, desconcertados com o que nos é apresentado. A invasão caranguejeira, a nudez que não choca perante o horror do estupro da índia e da terra, a fala das meninas de rua ludibriadas e violentadas, a lógica imperialista na revista em quadrinhos, a nau dos colonizadores tão belamente construída e tão significativa em seus elementos e trilha sonora, os políticos caquéticos, sempre com a mesma máscara, a mesma falácia acompanhados da ótima escolha musical (democrata cristão), a destruição do mito de tiradentes e de todos os outros mitos representados pela morte de Zé Carioca, os depoimentos sinceros, ingênuos e inesperados do metrô, as matrizes africanas e indígenas, a fetichização do negro e do índio, a farra do boi, a quem pertence a terra, quem são os donos do Brasil, a falência da escola e da educação pública, a perversidade da divisão de raças e de camadas socioeconômicas, o engodo da inclusão, a crueza do julgamento, a repressão, a punição, a ausência de soluções.
Está tudo ali. Escancarado, pisado e repisado para quem ousar ver.
O único alento que surge é a celebração, o grito amargo e festivo, o teatro como resistência, regado à revolta, criação e vinho.
Ao final do espetáculo fecha-se o circo de terror e miséria. Mas só no palco. Saltando para a vida real, se nada for feito, restar-nos-á esperar, sentados, pelo paraíso.
Mei Hua
