Relatório de Atividades por Gilberto Alves – Núcleo PY
Da criação à reprodução criativa.
Depois de meses em cartaz, a última fase deste longo processo, depois de termos criado a dramaturgia, os corpos, as vozes, as encenações e os jogos, tem sido de reproduzir o espetáculo criado. Não é, no entanto, mera reprodução, como se fossemos máquinas de uma fábrica da indústria cultural, somos homens e nosso trabalho não é mercadoria, somos criativos, inclusive no ato da reprodução.
A cada dia descobrimos um novo espetáculo. O público garante que o ambiente de interação e encontro, sem os quais o teatro não se faz, seja diferente a cada dia. Este processo dialógico nos apresenta novas contradições: o público “ruim”, que ora parece não entender (aceitar) nossas críticas, ironias e visões sobre a história, nos ensina a (re)fazer a peça de maneira mais clara, objetiva e faz brotar energia de onde menos esperamos e nos surpreendemos do ruim ao bom; o público “bom”, formado geralmente de pessoas mais parecidas conosco, que parece entender cada frase proposta é por vezes ainda mais impiedoso, e nos ensina a ir além das expectativas e tocar nos pontos mais importantes da maneira mais incisiva possível. Ambos têm sido muito generosos o que nos dá muito prazer em construir cada apresentação com as modificações propostas pelos “bons/ruins” e os “ruins/bons” quebrando paredes e preconceitos acerca da receptividade de nosso trabalho.
Depois de ter criado e permanecido em cartaz em duas peças com o núcleo de atores em formação da Antropofágica, o PY, e tendo agora participado deste processo de devoração do “núcleo profissional”, vejo estas fronteiras se amalgamarem e se dissolverem, na medida em que a troca e o aprendizado criam relações pessoais mais íntimas e de relações de trabalho mais ricas. Não consigo mais ver os atores deste ou daquele núcleo: trabalhadores unidos na militância deste espetáculo único.
O simples fato de participar de uma estrutura na qual os próprios trabalhadores determinam seu trabalho, sua forma, seu conteúdo e seu produto, além de todo o aprendizado constante, faz parecer pouco todo cansaço e sacrifício investidos neste espetáculo que, dadas as repetições sempre imbuídas de novos e mais profundos significados, toma forma de uma liturgia quase necessária à saúde mental e corporal de quem dela participa.
