Relatório de Atividades por Thiago Reis Vasconcelos – ATP
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Terceiro ato
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De Pindorama ao Pyndorama
Contar a colônia como atores de nosso tempo
Abertos para o futuro sem se apegar a nenhum passado de amarras
Chegamos a espinafração contra a farsa das “determinações” coloniais
Temporada: momento de devorar e ser devorado
Cauim-tinto
Moquém da história desconstruída
Dando nossa contribuição milionária de todos os Erros de todos os Eros
Oswald-Brecht-Maiakovski-Kantor cantando Prado-Buarque-Freyre-Lery e inúmeros contos de fada
Bárbaros-tecnizados contra a civilização das caravelas
Carasvelhas que insistem em seu velho mundo decadente
Arreganhamos a dentuça
Nossa arte contra a barbárie genocida que em nome da civilidade mata, explora, escraviza
Segundos depois
Somos Bárbaros contra a barbárie das caravelas
Prólogo – o teatro resiste à absorção da mercadoria
A índia estuprada resiste
De longe vieram os espelhos de uma civilização que queria fazer da terra Brasilis a imagem e semelhança de seus erros e acertos
Mas os bárbaros nunca foram catequizados, fizeram foi o carnaval
Narração não linear de uma “história”
A chegada dos portugueses. A vinda da família real. O português vestiu o índio.
Resistimos. Pelados. Cantando.
A nudez não vem para provocar. Vem evocar o direito de mostrar nossas vergonhas sem nenhuma vergonha.
Descobrimos a liberdade no movimento
a liberdade que se conquista a cada ato
que ao menor descuido volta paras senzalas
Nosso bobo da corte não é tão bobo quanto parece
Exibimos a corte. Que chega oferecendo o paraíso aos nativos.
- querem ensinar o Padre a rezar a missa?
Quanto riso. Quanta alergia. As doenças enlatadas.
Primeiro passo: cercar as terras e se proclamar o Dono.
As caravelas vieram repletas de administradores que só não trouxeram sua disposição do trabalho físico.
O boi. Animal mercadoria disputada entre poderosos.
O Padre visita as casas como nosso primeiro pedágio para o caminho do paraíso…
O confronto se arma as índias e mulheres anônimas com arcos e flechas combatem a pólvora. Tombam na luta. Os caídos que se levantem. Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
Interlúdico com música, muita música. Todos levantam para o próximo Ato.
Um índio aparece e trava o primeiro contato.
Brincamos de ET. Mas o buraco é mais embaixo.
Vemos introjetado em sua barriga a animadora de auditório cantando com alegria.
- Eles já foram os donos dessa terra. “Já foram” incomoda aos ouvidos. Só podemos atender ao mundo orecular. Cai por terra a alegria da infância de uma manchete global.
Globalização da miséria.
Educação para todos.
A escola de Kantor como teatro Fórum. O público vota. Ou se nega a votar.
A merda quem fez? Os acusados: o negro, o índio e o pobre.
Só um pode ocupar as vagas subtraídas devido a crise. Nossas crises “abstratas”.
Mas logo: A volta dos poderosos preocupados em atender aos estudantes. Agora em greve.
A saída “democrática”. Escolham um dos três.
Aí paramos. Perguntamos. Quem quer propor uma solução para esta cena?
Cada dia uma resposta.
Muitos acreditam no “teatro”.
Entra o índio Chiquinha que conhecemos nas ruas. O inventor da dança do siri.
Os atores arranham o litoral. Expulsos pelo delator opressor, Joaquim Silvério dos Reis, vindo das minas. Mais um a querer azedar a inconfidência.
Traz a cabeça de Tiradentes. E caça a cabeça do público com suas provocações.
A tecnologia nos leva ao metrô. A voz de um camelô indignado toca enquanto os músicos escutam.
Estamos na Sé, um painel de relações coloniais contemporâneas. Joga-se a sorte. E a prostituta se vende ao turista. Sonhando com uma casa.
- Minha casa. Mas a velha sábia traz bons fluidos. Para aqueles que mesmo na miséria acreditam e reagem como conseguem.
Mas insistimos em depositar nossas esperanças de crescer no futebol.
Carmem Miranda. Seleção. Zé Carioca e papai Walt Disney. Mas o que tem a colônia com isso?
Produzimos nossa cultura de exportação… algo deu errado exportaram e exportaram nossa cultura baseada em um exotismo de fórmulas agradáveis. Mulher mercadoria.
Zé Carioca morre no conflito hamletiano ser ou não ser. Tupy or not tupy. Como grande herói nacional paramos para marcha funeral.
A nação se une em torno do herói. E todos se sentem unidos.
Mas a confissão confunde. O papagaio que não entendeu como traiu sua família e permaneceu verde amarelo. Ufanismo de Anta.
Ufanismo de Anta contra a antropofagia do bárbaro tecnizado.
Já no tribunal-purgatório mais uma vez e desta vez os três poderes tendo como funcionários um corcunda e uma zebra. Vão incriminando aqueles “irrelevantes” para nossa história.
Mas só o corcunda parece escutar a voz que vem da noiva da revolução. Abandonada na porta …
Da voz da noiva poemas de Brecht.
“Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas,
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto, morre quem não come, e quem não come
o suficiente
Morre lentamente.
Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.”
Na iminência de qualquer movimento de defesa. Com o interesse de mudar para que tudo permaneça.
Os três poderes se beijam em nome da herança portuguesa.
Um grito. Pela liberdade.
De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
Outro grito. O do Ipiranga.
Independência ou morte. Apoiados nas costas da índia condenada por bigamia fruto de vários estupros.
Volta a noiva e diz:
“Como pode a voz que vem das casas
Ser a da justiça
Se os pátios estão desabrigados?
Quem na canoa não tem
Lugar para os que se afogam
Não tem compaixão.
Quem não sabe de ajuda
Que cale.”
Acaba o teatro para os atores que se calam por pouco tempo
Quando se entregam as palavras finais ao ato-musical de quem não pode mais calar..
