Núcleo ATP
A Antropofágica surgiu em abril de 2002 e teve, como primeira proposta de pesquisa, a incorporação da antropofagia como princípio criador e motivador de todo o processo sócio-artístico. Os estudos iniciais realizados pelo núcleo de pesquisa mostraram-se profícuos e dignos de maiores elucidações e experimentações cênicas.
Todas as hipóteses antropofágicas transformadoras, que eram amplamente discutidas e refletidas pelo grupo, revelavam-se verdadeiras e pertinentes durante a prática experimental. A cada encontro da Antropofágica, apresentava-se uma nítida evolução dos estudos antropofágicos que, por sua vez, passaram a estabelecer contato direto com outras variadas fontes de pesquisa (outros atores, autores, filósofos e estudiosos das áreas de arte, linguagem e teatro, experimentações musicais, instrumentais, corporais etc.), enriquecendo ainda mais o processo vivenciado pelo grupo.
Os elementos identificados como princípios antropofágicos – por exemplo o primitivismo, transformação do valor oposto em valor favorável e a genealogia da brasilidade que servem de base reflexiva e prática para a pesquisa e construção do espetáculo – surgem como dispositivos norteadores durante os ensaios e elaboração das cenas.
A Antropofágica faz um trabalho de mapeamento destes princípios na tentativa de realizar uma digestão do próprio conceito complexo de antropofagia. No ano de 2002, diante da necessidade de explorar o universo teatral em uma perspectiva antropofágica, a Antropofágica realizou, a partir de textos de Oswald de Andrade e de Mário de Andrade, o espetáculo Macunaíma no País do Rei da Vela.
Nos anos seguintes, a Antropofágica iniciou um estudo bastante peculiar relacionado às distorções, degradações e flagelos aos quais o ser humano é constantemente submetido. A descida ao grotesco e o encontro com as debilidades e perversidades humanas propiciou uma nova etapa de investigação na história da Antropofágica. Esta linha de pesquisa foi denominada pelo grupo como teatro da deformação e culminou com a criação do espetáculo A tragédia de João e Maria.
No ano de 2004, a partir de uma pesquisa realizada pela companhia sobre a estrutura dramática da tragédia e em função do estudo da obra Vigiar e punir de Michel Foucault, cujo enfoque volta-se para o exame da relação do homem com o poder, estreou a peça Prometeu: Estudo Nº1, resultado de tais influências e trabalhos teóricos.
No ano de 2005, a Antropofágica residiu no Espaço Cultural Tendal da Lapa e, ampliando seus princípios de socialização e de exploração criativa da arte e do fazer teatral, apresentou seu repertório em festivais e temporadas a preços populares ou mesmo gratuitas. A Oficina do Ator Antropofágico, iniciada no ano anterior e ampliada nesse ano, fortaleceu ainda mais o intuito da Antropofágica de coletivizar o processo artístico. Essas oficinas revelam-se cada vez mais como um ato altamente enriquecedor – cultural e socialmente – tanto para seus integrantes-artistas, quanto para o público que dela participa.
Neste mesmo ano teve início um processo de pesquisa com o foco na antropofagia-ritual do Brasil do século XVI, tendo como base dramatúrgica o texto do alemão Hans Staden. Os relatos deste viajante e toda a saga de suas excursões e incursões pelas terras tupiniquins mostraram-se ricos e dignos de estudos mais meticulosos. O material pesquisado, bem como as analogias e possibilidades suscitadas pelo texto e pelo tema das grandes expedições, despertou o interesse em desvendar a temática da dominação.
Nesses quatro anos, o grupo, além de dar continuidade aos estudos teatrais sócio-culturais antropofágicos, sempre cumpriu uma agenda de atividades paralelas ao processo, as quais estão intrinsecamente associadas aos ideais do grupo, tais como: oficina de Conta-Ação de (h)estórias; atividades em parques e locais públicos; participação em eventos artísticos (EIA – Encontro Internacional de Antropofagia/SESC Pompéia, Feira Cultural da Pompéia, Festival de Teatro de Curitiba); apresentação de espetáculos em locais variados e apoio a causas sociais.
A pesquisa de 2006/2007, culminou com o espetáculo Os Náufragos da Rua Constança, inspirado no filme O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, e em duas grandes áreas de interesse: a questão do aprisionamento burguês e sua moral decadente e a imersão no surrealismo e na estética de Tadeusz Kantor, que já marcavam presença nos trabalhos anteriores.
Partindo de uma única constante – todos presos em uma casa sem qualquer explicação – para o trabalho de improvisações, uma situação mínima gerava toda a ação em cenas que se repetiam e traziam outros conflitos. A motivação era de caráter político-social: falar da decadência de uma classe e ao mesmo tempo do aprisionamento vigiado semelhante a um proto-reality show.
Ainda no final da última temporada do espetáculo Os Náufragos da Rua Constança, a Antropofágica inaugurou sua nova sede, o Espaço Pyndorama. Neste espaço pôde ampliar seu projeto de formação, criando a partir de membros da Oficina do Ator Antropofágico, o Núcleo PY de formação de atores.
No segundo semestre de 2008, aproximadamente um ano após a inauguração do novo espaço, a Antropofágica teve seu projeto contemplado pela primeira vez na 13a edição do Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Neste projeto, ela se voltou novamente para a história do Brasil, desta vez especialmente para o período colonial. Foram parte deste projeto várias atividades como o novo espetáculo Terror e Miséria no Novo Mundo parte 1: Estação Paraíso, a montagem com o Núcleo PY de Zumbi or not Zumby, além do aprimoramento do trabalho de ator, com estudos do corpo e de dramaturgia.
No presente projeto, este núcleo tem trabalhado na continuidade da pesquisa anterior, passando da colônia para o período imperial do Brasil, estudando a carnavalização, Tadeusz Kantor, o Épico, uma nova performance com a criação e intervenções na Karroça, um novo espetáculo baseado nesta pesquisa e a continuidade dos estudos de corpo, dramaturgia e voz.
